A entrada do pesquisador brasileiro Silmar Peske, Dr. da Universidade Federal de Pelotas, no recém-criado Painel Consultivo Estratégico da ISTA coloca o Brasil no centro das discussões globais sobre o futuro do setor de sementes - uma área cada vez mais estratégica para a segurança alimentar e o comércio internacional.
O grupo, formado por 11 especialistas de diferentes países, foi criado para orientar a ISTA de forma mais proativa diante das rápidas transformações tecnológicas, regulatórias e comerciais que impactam o segmento. Diferentemente dos comitês técnicos, responsáveis por normas e metodologias, o painel tem como foco antecipar tendências e contribuir para a evolução da normatização, padronização e inovação no setor.
A escolha de Peske, que já foi presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), reflete não apenas sua trajetória acadêmica e atuação internacional, mas também a relevância crescente do Brasil no mercado global de sementes. Com participação em comitês da ISTA desde a década de 1990 e passagem pela vice-presidência da entidade, ele passa a integrar um grupo que reúne representantes da indústria, academia e comércio internacional.
“Fiquei muito lisonjeado e contente com o convite. Continuo inserido no setor, e ser lembrado mostra que pude contribuir e que ainda posso aportar mais ao sistema. Estarei participando das maiores discussões e isso é muito importante para o setor produtivo de sementes”, afirma
A criação do painel ocorre em um contexto de mudanças rápidas. A digitalização dos processos, o uso de inteligência artificial e a modernização dos sistemas de certificação estão entre os principais vetores dessa transformação.
Um exemplo é a evolução dos certificados de sementes — documentos essenciais para o comércio internacional — que migram do formato físico para plataformas digitais, com uso de QR Code e sistemas mais ágeis e rastreáveis. “A ISTA, reconhecida globalmente por emitir esses certificados, busca garantir que suas normas acompanhem essa nova realidade”, afirma Peske.
Além disso, tecnologias como a análise por imagem de alta resolução começam a transformar testes tradicionais, como os de pureza, tornando os processos mais rápidos e precisos.
Segundo o pesquisador, a principal força da ISTA está na elaboração e atualização das regras internacionais para análise de sementes, revisadas anualmente e base do comércio global. Um dos desafios, porém, é acompanhar a velocidade das mudanças do setor.
“Na prática, quem enfrenta os entraves são as empresas que comercializam sementes, lidando diretamente com limitações e lacunas das normas vigentes. Por isso, cresce a necessidade de um sistema mais ágil, confiável e alinhado à realidade do mercado”, destaca.
Nesse cenário, o novo painel consultivo surge para levar essas demandas à organização, contribuindo para o aprimoramento de normas, procedimentos e soluções digitais.
“Atualmente, o comércio internacional de sementes se apoia principalmente em testes de germinação e pureza. Entretanto, um dos temas mais debatidos é o vigor de sementes — como medi-lo, interpretá-lo e registrá-lo de forma padronizada. A possível normatização desse parâmetro ainda está em discussão. Ao mesmo tempo, o avanço de novas tecnologias reforça a necessidade de revisão e modernização dos regulamentos”, acrescenta Peske.
A participação brasileira também tem impacto direto na competitividade do país. Hoje, o Brasil conta com apenas três laboratórios credenciados pela ISTA para emissão do chamado certificado laranja, exigido no comércio internacional. Esse número é considerado baixo diante dos cerca de 300 laboratórios do país.
Com a tendência de expansão desse mercado, a inserção nas discussões estratégicas pode facilitar a adaptação às exigências internacionais e abrir novas oportunidades de exportação. Além disso, permite acesso antecipado a mudanças e inovações, fortalecendo toda a cadeia produtiva.
De acordo com Silmar Peske, mais do que uma matéria-prima, a semente é a base da produtividade agrícola. Sua qualidade, rastreabilidade e conformidade com padrões internacionais são determinantes tanto para o desempenho das lavouras quanto para a inserção competitiva no mercado global.
“iniciativas como o Painel Consultivo reforçam a importância de alinhar ciência, tecnologia e regulação, e mostram que o Brasil não apenas acompanha, mas também contribui para moldar o futuro do setor”.