Soja convencional pode se tornar nicho de mercado
05/02/2017

Mercado de Sementes

Sementes geneticamente modificadas (GM) avançam, mas mercados exigentes garantem demanda por soja livre

A Comissão Europeia  acaba de aprovar a comercialização da nova tecnologia de soja transgênica que combina tolerância a herbicidas e resistência a insetos, o que representa a abertura do mercado. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de culturas transgênicas, segundo relatório do ISAAA (Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agro-Biotecnológicas Agrícolas dos Estados Unidos). De acordo com Clive James, diretor do ISAAA, em 2011, a adoção de plantas geneticamente modificadas cresceu 8% em todo o mundo, o representa um adicional de 12 milhões de hectares. Mesmo com a acelerada redução da área plantada, a soja convencional deve resistir aos avanços dos GM.

É o que acredita o superintendente-executivo da Abrasem, José Américo Pierre Rodrigues. Presente no VI Congresso Brasileiro de Soja, em junho, ele pondera que hoje apenas 15% o mercado corresponde à soja convencional. Rodrigues observa que o interesse por materiais convencionais deverá se converter em um nicho de mercado. "Acredito que sempre haverá demanda por sementes convencionais, o que deve ficar em torno de 10%", disse.

Para Ivan Paghi, diretor técnico da Associação Brasileira de Produtores de Grãos Não-Geneticamente Modificados (Abrange), a soja convencional corresponde a 26% da área plantada no Brasil. No entanto ele concorda que o material não modificado se caracteriza um mercado especial.

De acordo com a pesquisadora Mercedes Concórdia Carrão Panizzi, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Trigo, ?os produtos de soja brasileiros possuem alto teor de proteína e padrão de qualidade?, o que permite sua entrada na União Europeia e no Japão. No entanto, estes mercados são altamente exigentes e resistentes ao consumo de transgênicos.

Desenvolvido para ampliar a oferta de sementes de soja convencional e fortalecer parcerias para a transferência de tecnologia de cultivares de soja convencional da Embrapa, o Programa Soja Livre possibilita oferecer opções tecnológicas, a fim de manter a competitividade do setor, visando atender às necessidades técnicas e econômicas dos sojicultores. ?A soja não-modificada apresenta vantagens técnicas e econômicas, por agregar valor para toda a cadeia produtiva. O Programa Soja Livre resgata e reforça uma história de sucesso com a soja convencional no Brasil, sendo uma opção técnica e economicamente viável para o produtor de soja. O cultivo de soja convencional atualmente atende mercados mais específicos no Brasil e no mundo todo, fortalecendo, assim, as oportunidades de diferenciação e agregação de valor à produção e à exportação nacional?, afirma Paghi.

Entre as principais causas do crescimento da área com plantas GM estão a grande oferta variedades desses materiais e a redução de oferta de cultivares convencionais no mercado. Para o presidente da ABRATES, José de Barros França Neto, pesquisador da Embrapa Soja, o aumento na área com organismos GM é reflexo da demanda por produtividade. ?Hoje alguns materiais permitem aumento de produtividade com sustentabilidade, conservação no tamanho de área plantada e redução de custos com insumos?, acredita França Neto. Porém, se o mercado demanda, há espaço para o cultivo de cultivares tradicionais, não transgênicas. Ele ainda observa que a tentativa do produtor em economizar com o uso de sementes próprias pode refletir em contaminação de áreas de plantio convencional com transgênicos. ?A semente salva nem sempre tem o nível de qualidade que a indústria de sementes pode oferecer?, complementa.

A produção de sementes certificadas também cresceu na safra 2011/12, Segundo o balanço anual da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), a indústria de sementes produziu 23% mais sementes certificadas.

Futuro negócio
As projeções do ISAAA revelam que o Brasil poderá em breve ultrapassar os Estados Unidos como o maior produtor de culturas biotecnológicas. ?Brasil, Índia e China estão no limiar da revolução agrícola através do cultivo em larga escala de plantas geneticamente modificadas?, afirmou Clive James. Em 2011, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou seis novos eventos com sementes geneticamente modificadas, incluindo variedades de feijão transgênico da Embrapa.

De acordo com o relatório da empresa de consultoria Céleres, divulgado em abril pela Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), os benefícios econômicos percebidos pelos produtores rurais que aplicaram biotecnologia nas culturas do algodão, do milho e da soja, juntamente dos resultados acumulados pela indústria detentora da tecnologia somam, desde a safra 1996/97, o montante de US$ 11,9 bilhões. Deste valor, 44% foram gerados pelos ganhos de produtividade, principalmente impulsionados pelo milho transgênico.

Adotado desde 2008/09, o milho é a cultura responsável por 49% do benefício econômico acumulado. Hoje a soja responde por 47% do total dos lucros. Segundo o ISAAA, os países em desenvolvimento mostraram maior interesse em biotecnologia das lavouras. Foi observada uma adoção duas vezes mais rápida e duas vezes maior. As culturas modificadas cresceram 11%, representando 8,2 milhões de hectares, em 2011. Os países em desenvolvimento líderes na adoção de biotecnologia são Brasil e Argentina na América Latina, China e Índia na Ásia, e África do Sul no continente africano e, juntos, representam 40% da população global. Já os países industrializados aumentaram em 5% o uso de sementes geneticamente modificadas, o que representa 3,8 milhões de hectares. Ainda segundo o relatório, em todo o mundo, 90%, ou o equivalente a mais de 15 milhões de produtores, são pequenos agricultores em países em desenvolvimento.

Ganhos reais
Para a Abrasem, as cultivares transgênicas podem gerar até R$ 3,59 para cada R$ 1 investido na semente. A cada R$ 1 investido em biotecnologia na saca de sementes em 2011 o produtor obteve, em média, R$ 2,61 de retorno adicional na produção de milho, R$ 1,59 na de soja e R$ 3,59 na de algodão. De acordo com Anderson Galvão, sócio-diretor da Céleres e coordenador do estudo divulgado em abril pela Abrasem, é a primeira vez que se pode calcular o ganho sobre a margem operacional da produção de transgênicos nas lavouras brasileiras.  "Com isso, foi possível trazer os benefícios econômicos para uma realidade bem mais próxima do agricultor brasileiro", aponta Galvão.

Os resultados da última safra fazem parte da quinta edição do estudo, realizado anualmente desde 2008 para a Abrasem. Os resultados se baseiam em pesquisa de campo e entrevista com mais de 360 produtores de soja, milho e algodão de todo o País.